O Saber do não-saber




Quando mergulhamos no ideário medieval nos deparamos com uma compreensão própria de saber-conhecimento, um modo de entender o mundo que aparece como estranho para nós modernos. Hoje temos muita dificuldade em entender o modo de pensar que dominou a filosofia grega e que, dentro de um outro colorido, reapareceu na Idade Média. Este modo de pensar se refletia na compreensão de saber-conhecimento como um “não-saber”. Não se tratava, entretanto, de um saber inculto, inócuo ou desprovido de conteúdo, mas consistia em reconhecer que não temos a capacidade de “saber tudo” e que somos capazes somente de reconhecer que “nada sabemos”.
Sócrates, lá na antiguidade, apresentou ao mundo este modo de saber, para isso ele cunhou uma frase que até hoje marca a história da filosofia: “tudo que sei é que nada sei”. Na Idade Média este “saber do não-saber” foi atualizado por Nicolau de Cusa e chamado de “Douta Ignorância”.
Na modernidade, com o advento das ciências, perdemos essa noção de profundidade, o saber deixou de buscar o “não-saber”, para se dedicar ao domínio do conhecimento. Enquanto o medieval dedicava a vida aos grandes empreendimentos, nós, modernos, fragmentamos nossos empreendimentos e dissolvemos nossas energias em inúmeras atividades. Para o medieval, qualquer atividade devia ser profunda e cheia de sentido próprio, nada era feito por fazer. Toda a existência estava empenhada em qualquer coisa que se iniciasse, por menor que fosse.
Na modernidade temos a tendência de fragmentar as ações, dispersando nossa energia em várias coisas e direções. Assim, temos dificuldade de nos mantermos atentos a uma única coisa, e ficamos exaustos, pois não alcançamos nossos objetivos. A estrutura moderna, que tudo a fragmenta, fez-nos cegos para os grandes objetivos, não sabemos por que vivemos nem o que queremos de nossas vidas, diferente dos medievais, que tinham certo sua função e que tinham clareza do motivo pelo qual viviam. O cavaleiro queria ser o grande cavaleiro, o artesão queria ser o grande artesão, mas nunca um queria o espaço do outro. Talvez nos falte o ideal de ser o melhor em tudo que fazemos, coisa que definia bem um medieval.
No que condiz ao conhecimento, hoje queremos saber um pouco de cada coisa, para dominar o máximo de conteúdo. Contudo, não conseguimos ter uma visão unívoca do mundo. Vemos o mundo com uma série de coisas linearmente colocadas. Os medievais não observavam o mundo como série de coisas. Mas como um panateísmo, onde em tudo podia ser observada a presença da divindade. Assim, todas as coisas estavam imbricadas, todas as criaturas remetiam a uma única realidade, pois tudo estava em tudo. E lá, na profundidade todas as coisas se encontram como unas.

O ESTUDO NO MEDIEVO





A Idade Média se destaca pelo empenho e dedicação que alguns tinham aos estudos. Os estudantes tinham como único caminho para vida o estudo em si. Ou seja, não havia entre eles o intuito da escola moderna, onde o estudante (aluno) se coloca em formação para uma atividade. Toda a atividade do estudo estava centrada nela mesma e a partir dela se desenvolvia uma busca interna, onde a sabedoria irrompia como empenho e dedicação. Assim, o estudo tinha um foco em si mesmo e o medieval simplesmente estudava, sem preocupar-se com frutos externos à arte de estudar.
Quando falamos em estudo, principalmente na experiência medieval, nos remetemos ao termo latino “Studium”, de onde derivou a palavra estudo. Este termo tem a ver com entrega de vida, com dedicação total e incondicional a algo. “Studium” remete ao devotamento e ao amor. O medieval, que dedicava sua vida ao estudo, o fazia por um amor incondicional. Por isso, vemos muitas pessoas que saiam de vários lugares do mundo para as cidades onde se destacava o ensino das artes. Essa busca pelo estudo estava alicerçada numa disposição pessoal, num chamamento anterior, ou seja, numa predisposição quase religiosa.
O medieval tinha em seu ideal o seguimento ao Cristo. Este seguimento remetia dedicação total da uma vida. Daí que muitos assumem o estudo não como preparo para desempenhar uma atividade rentável e lucrativa, mas como dedicação incondicional ao seu objetivo, quase uma vocação. Assim, o estudo se tornava o caminho para o seguimento do Senhor.
Para compreender o modelo do estudo medieval podemos fazer uso do provérbio latino, “non multa, sed multum”. Ou seja, não são as muitas coisas, a infinidade de saberes, que definiam o estudo, mas a profundidade de cada um. Uma única busca, intensa e profunda, o medieval busca por uma única perfeição. O saber que se remeteria ao poder, ao domínio do mundo, quer “multa”. O espírito, no que condiz ao “studium” diz o “multum”. Assim, o medieval dedicava sua vida com graça e plenitude àquilo que lhe era próprio, a intensidade das pequenas coisas.
Podemos sentir na profundidade dos medievais a força propulsora de bem fazer. Para a compreensão moderna pouco fizeram, pouco construíram, mas num entendimento de “Studium” muito fizeram, pois foram perfeitos e nos mais insignificantes detalhes.
Nessa mentalidade, um monge podia entregar sua vida à cópia. E ali, sobre aquele cavalete, passar todo o tempo fazendo pouquíssimas cópias, desenhando inúmeras iluminuras num único texto. O objetivo deste trabalho era a perfeição alcançada.
O mesmo se dava com o estudo. O caminho do estudo era a busca pela profundidade, o encontro com o essencial. Ao tomarmos um texto medieval vamos perceber que todo aquele trabalho se direciona ao encontro com o substrato que sustenta o todo. Ou seja, o encontro com a unicidade de todas as coisas. Neste caminho, o estudioso ia se deparando com inúmeras artes e inúmeros modos de compreender o mesmo. Estes modos vão irrompendo como astronomia, matemática, artes, gramática, teologia, etc. Todas estas facetas apontam para uma mesma realidade. Daí que o medieval passava em sua lida acadêmica pelo estudo do “Trivium” e do “Quadrivium”.
Contudo, estes saberes não estavam dispostos um ao lado do outro, como se apresentam os saberes hoje. Eles constituíam um processo de crescimento, um caminho de encontro consigo mesmo e com uma unidade maior. A relação com o sagrado era essencial para que este movimento pudesse acontecer. Somente com um alicerce bem firmado eles podiam bailar entre as diversas formas do saber. Contudo, somente uma coisa era realmente importante, a isso eles chamavam de seguimento-discipulado.

A Penitência na Idade Média

Fazer penitência era, nas palavras São Francisco, “reconhecer as mãos de quem nos criou”. Portanto, a penitência tinha um compromisso com a criação. Não se tratava de uma mortificação e nada tinha a ver com o sofrimento. Fazer penitência estava no sangue que qualquer medieval, eles a viam como o momento propício para abrir espaço para Deus, momento de íntima comunicação com o Criador.
Hoje, vivemos num mundo cheio, lotado, sem espaço para as coisas de Deus, o criador se torna mais um artigo a ser vendido e ofertado. O Criador entrou no mercado do marketing, precisamos de frases de impacto e de grandes acontecimentos para percebermos a presença dele.
Francisco via em seu tempo um crescendo declínio na fé, onde as atividades começam a tomar o espaço e o tempo que antes era destinado para o Senhor. Para se livrar desta prisão, o mundo, Francisco fazia o jejum, como um exercício de penitência.
A atitude de Francisco não tinha como finalidade o sofrimento, mas com o jejum ele permitia que a criatura fosse criatura, permitia que o animal permanecesse vivo, que a fruta seguisse seu caminho normal, garantia que por ao menos um dia, o alimento fosse simplesmente alimento, reconhecendo as mãos de quem o criou.
Francisco se percebia como irmão de todo ser. Ele não se fazia dono, senhor do alimento, mas também não permitia que o alimento o dominasse. A penitência fazia de Francisco um homem livre para a vida, e feliz diante do seu Senhor.
O hábito de eliminar excessos, de aparar arestas, criava um espaço divino, um momento para Deus, para que transparecesse somente Deus e não somente o homem.
Muitas coisas somente ocupam espaço em nossa vida hoje, a penitência perdeu o sentido do Sacrifício (“sacrum”+ “facere”), fazer santo, ou melhor fazer-se santo, e tomou uma característica de dor ou de mutilação. Quando vemos alguém que sofre ou que se maltrata, dizemos que este faz penitência.
Por isso, os medievais procuravam fazer penitência, desde leigos, monges, clérigos e até Papas. Penitenciavam não somente para se livrarem dos pecados e garantir a salvação, mas também para responder a uma guerra, um acontecimento que queriam contestar, como fazia Ghandi na luta pela não-violência.
Pela penitência se exercitava a vontade e o desejo, faziam deles um domínio e não o que fazemos deles hoje, uma dominação. Portanto, fazer penitência era mais que uma disposição, era propriamente um dom divino.“E o Senhor concedeu a mim, frei Francisco, começar a fazer penitência”. Escreveu São Francisco.
A atitude penitente está no cerne do ideal de Francisco, no seu pensamento e na sua ação. Através da penitência molda a sua existência carismática para entregá-la totalmente ao Senhor.

Dennys Robson Girardi
dennys_girardi@ibest.com.br

Dia 04 de outubro, nós franciscanos, celebramos a solenidade de São Francisco.

RELIGIÃO, VIDA E MODELO


Para compreender a Igreja da Idade Média, precisamos entender como o homem medieval percebia sua experiência religiosa. No contexto medieval, a Igreja era a única manifestação divina na terra, toda essa manifestação se dava numa estrutura, como algo organizado e claro. Por isso, estar ligado à Igreja era ter como certo a ligação com Deus.
Como a religião se manifestava numa estrutura, não necessariamente numa experiência de Deus, todos deviam seguir as normas e diretrizes da Igreja. Para o medieval, seguir os ensinamentos da Igreja era o mesmo que seguir próprio Deus.
Contudo, é bom relembrar que o homem mantinha firme sua postura, boa ou má. Logo, se existiam aqueles que viviam em tudo a verdade da religião católica, havia também os que se mantinham à distância. Desta forma, naquela época, surgem muitas heresias que colocavam constantemente a Igreja em posição desconfortável.
Uma forma de acabar com os inimigos da fé estrutural foi a criação do Tribunal da Santa Inquisição. Este tribunal tinha dever de defender a fé católica de todo tipo de profanação ou heresia. Assumindo a sagrada escritura e a tradição como base de seu pensamento, o tribunal caçou e levou muitos homens à fogueira, simplesmente por divergirem do pensamento reinante ou por apresentarem algo novo à sociedade.
Por outro lado, a vida mística era muito forte. Todos tinham a possibilidade de encontrar, por meio da religião, um sustento para manter o equilíbrio da vida. Quem assumia a religião fazia um processo onde o homem se moldava, numa busca de ser sempre melhor, se preparava para assumir a existência e se descobria enquanto ser no mundo. Quem assumia a religião estava disposto a uma radical mudança de vida, disposto a um encontro íntimo, disposto a uma verdadeira vivência de normas, na qual a mais importante era a obediência a Deus.
A religião era “digna de ser imitada”, pois imitar não é simplesmente repetir, mas é um seguimento, fazer um caminho sob os passos de alguém que já o fez. Seguir o Cristo era a essência medievalesca, para isso faziam uso das mais variadas formas que dispunham. Eram capazes de deixar tudo, de partir para uma peregrinação, de se refugiar em ermos, de simplesmente entregar-se ao martírio, tudo para a glória de Deus. O que realmente interessava era o seguimento.
No mundo atual religião não tem a ver com seguimento ou com obediência. Hoje, a religião existe na dinâmica do mercado, ela acontece de modo mercenário, muitas vezes baseada na teologia da prosperidade, onde benção está ligada aos bens materiais ou ao bem estar. Nessa dinâmica giramos pelas religiões e denominações religiosas, sempre buscando uma que se adapte aos objetivos de cada um, como quando buscamos um produto no mercado.
O homem moderno não tem compromisso com a religião institucional. Criamos nossas religiões a partir de nossas necessidades. Muitas vezes, usamos delas e de uma falsa conversão para compensar os erros do passado. Buscamos nas religiões o show extraordinário, onde haja manifestação emotiva e miraculosa. Assim, não temos um compromisso ético com a opção religiosa. A religião se torna um espaço momentâneo de bem estar, onde cantamos e dançamos, sem a consciência crística da vida, sem a expectativa do reino. Dessa nova religião do bem estar ouvimos os slogans: “Deus é 10!” (Enquanto o CD é 15,00), “Seja sócio de nossa obra!” (Sócio sem direito às ações).
A diferença crucial entre o modelo medieval e o modelo moderno de religião está na opção pela mudança de vida e seguimento do Cristo. Hoje, religião não passa de mais um produto à disposição nas prateleiras do grande mundo mercado, onde a religião compensa as dificuldades, depressões e tristezas do dia-a-dia.

SABER GUARDAR-SE

A grandeza do ser humano germina no escondido. O homem de valor é aquele sabe como guardar seu segredo e principalmente sabe selecionar seus segredos. Quem não tem algo para esconder? Algo que tenha de permanecer sempre oculto? Este segredo define o valor de cada um.
O segredo é um atrativo, o que mantemos oculto é responsável por atrair os outros até nós e da mesma forma somos atraídos pelos segredos dos outros. As pessoas mais fracas e ignorantes criam mecanismos imaginários sobre os segredos alheios, perdem seu tempo com fofocas sobre o que pensam saber dos demais. O fofoqueiro tem medo de seu segredo, precisa mantê-lo escondido, por isso se atém no segredo do outro, cria milhares de interpretações para algo que nem mesmo sabe se existe.
Os amantes se atraem mutuamente pelo segredo. Quanto mais escondido estiver, maior a sede por desvenda-lo e maior a paixão envolvida. Nosso tesouro é aquilo que mantemos escondido, aquilo que não podemos falar e temos de defender a todo custo.
Para que nosso caráter seja forte e consistente é necessário que nosso segredo germine no escondido, como a semente que germina sob terra. Assim, no silêncio e na solidão aos poucos o segredo vai sendo revelado diante de todos. Irrompe da escura e silenciosa terra uma bela plantinha, fruto daquela semente. No ser humano, onde o segredo germina dentro do coração, surge a planta como ações.
Então, pelas ações podemos fazer idéia do segredo. Se ações de nobreza, sabemos ser de origem nobre o princípio do segredo, se de bondade, sabemos que boa é a semente. Mas de onde vem esta semente? Esta sementinha vem do berço, do espaço onde nascemos ou fomos criados. Portanto, devemos aprender com a natureza: bons animais dão bons rebentos. Bons pais geram e criam bons filhos, pois impregnam seu caráter em tudo o que fazem e se propõe.
A Idade Média destacava de modo público os bens nascidos, aqueles que eram filhos de pais honrados e portadores de bom caráter. Assim, aparece com muita clareza o ideal da fidalguia. Ter um segredo familiar, que irrompe em boas ações, demonstrava a grandeza da família.
Pelos frutos do segredo o homem é conhecido. Por estes frutos pode ser amado ou odiado. Daí que devemos saber como guardar este segredo. Esta semente nos diz quem seremos e quem podemos ser, tudo depende do modo com que a cultivarmos. Sabemos que somente quem a cultiva no escuro, no silêncio, distante das massas e dos olheiros pode ver sua árvore bela e frondosa sem ser cortada ou desviada por outro. O silêncio e a solidão garantem a consistência e a força das raízes, boas raízes possibilitam uma árvore frondosa geradora de bons frutos. Qual é o nosso segredo? Será que já tivemos a oportunidade de parar para pensar sobre o nosso tesouro mais valioso, o grande segredo?

O querer SER




O homem medieval estava numa constante corrida para conquistar grandes coisas. Todo jovem tinha por sonho a Ordem da Cavalaria, na qual poderia ser reconhecido mundialmente como forte e honrado. A Cavalaria era considerada a mais alta grandeza, somente os mais justos, bons, corteses e leais podiam dela participar.
Nos romances da época, encontramos toda a vontade e desejo da juventude, que nos cavaleiros e príncipes vislumbravam os altos sonhos, os ideais e os objetivos de vida. O jovem medieval estava em constante movimento para frente, simplesmente queria ir, não importava para onde, o importante era ir. Contudo, nunca se colocava a caminho sem antes saber o porquê estava indo. Sempre que se colocava a caminho tinha claro o motivo de seu caminhar, sabia exatamente qual era seu ideal.
Um determinante para esta busca era o amor pelo herói. O caráter e a honra determinavam os heróis. Todo menino tinha claro o objetivo de se tornar tão leal, tão cortês, tão justo e tão religioso quanto seu herói. Os heróis habitavam o mundo arquetípico medieval. Entre os religiosos os heróis eram exaltados por sua fé e grandes feitos, que apresentassem sua fidelidade a Deus e seu seguimento ao Cristo. Na sociedade civil eram admirados pela bravura nas batalhas vencidas, pela luta contra os infiéis e pelas grandes conquistas territoriais. Ou seja, o herói, santo ou cavaleiro, era reconhecido por seu grande feito.
Quando os cavaleiros voltavam de uma cruzada ou guerra toda comuna parava para recebe-lo. Instaurava-se uma festa em homenagem aos feitos dos heróis. Dança, música, festa, tudo para louvar o grande feito do herói. A grandeza não estava na pessoa do herói, mas na sua ação, em seu bem fazer, em sua grande obra.
Ao partir em busca do ideal heróico, o jovem, mesmo não sabendo onde encontrá-lo, simplesmente sabia o porquê caminhava, queria ser um “GRANDE”, como aqueles das histórias que ouvia, aqueles que eram aclamados nas praças, aqueles que conquistavam as damas mais nobres e corteses.
Manter firme o propósito é o que os diverge de nós, homens modernos, pois nós estamos na decadência de manter vivo algo que iniciamos, nossa busca pelo novo, o que está na moda, nos faz viver num constante mudar. É muito difícil conhecer alguém que começando um trabalho não o tenha abandonado logo de início, ou na primeira dificuldade. O medieval era firme, iniciada uma obra ele ia até as últimas conseqüências para conclui-la. Enquanto não vislumbrasse encerrada a empreitada, ele não parava. Isso não quer dizer que ele fosse um apressado, que quisesse terminar tudo logo, mas ele era como diz o Evangelho: “Um homem que constrói a casa sobre a rocha”. Assim, da mesma forma que ele não deixava para trás um trabalho começado, ele não o começava sem antes ter a plena certeza que poderia acabar.
A máxima medieval do “Ad maioras natus sum” (Nasci para coisas maiores), repetia-se no dia-a-dia. Ninguém queria se envolver em pequenas querelas, em brigas inúteis sem motivos e que a nada remetiam, mas todos queriam estar nas grandes lutas, nas guerras importantes, todos queriam defender a fé até a morte. Todos almejavam a grandeza, queriam marcar sua passagem pela vida como conquistador de grandezas.

O MAR DE SÍMBOLOS


Símbolo é tudo aquilo que, como expressa a semântica da palavra, “traz para junto”, tudo que aproxima uma realidade de outra por meio de um objeto. No medievo o uso do símbolo era muito freqüente, estava presente na vida ordinária de todos. A realidade simbólica podia ser contemplada nas igrejas, nas praças, nas ruas, enfim em todos os ambientes. A realidade dos símbolos acontecia tanto na civil como na religiosa.
Os símbolos representavam o que ia além, não ficavam presos às simples figuras. Por ter a consciência deste ir além, o medieval buscava o significado de seus símbolos, num emprenho continuo de tentar encontrar o espírito que sustenta a realidade. O medieval estava sempre empenhado em decifrar.
Entendemos porque cada família tinha um brasão, cada nação tinha uma bandeira, cada grupo tinha veste que o distinguia, não para parecer melhor que outrem, mas pelo que transcendia a imagem. Cada movimento, grupo ou autoridade, tinha um símbolo forte de representação.
Para o medieval nada estava preso ao visual. Hoje, é comum ficarmos nas aparências e decidirmos a partir delas. Por isso, o moderno não é valorizado pelo que ele é, mas pelo que aparenta ser. Enquanto que na Idade Media cada um simplesmente se apresentava como era. Não havia a mediocridade de hoje, cada um era inteiro em seus empreendimentos.
Naquela época surgem os grandes romances e livros lendários que se constituem num grande jogo de símbolos, surgem os estandartes, as Igrejas decoradas com diversos afrescos, aparecem as imagens, criam-se novos estilos musicais, num movimento que levava o homem a auto-compreensão, ao entendimento de sua condição. As cerimônias, repletas de símbolos, tinha a finalidade de conduzir, serviam de canais para o encontro do homem com a divindade.
A palavra estava entre os símbolos mais sagrados. No sacramento da palavra dita encontramos o maior exemplo da unidade do homem, pois um medieval jamais poderia voltar atrás. Não havia documentos nem contratos, bastava uma afirmação e o pacto estava selado. As palavras traziam todo o seu valor transcendente. Atualmente usamos constantemente as palavras sem ao menos saber realmente o significam, as palavras são simplesmente uma comunicação verbal e não uma comunicação espiritual, onde divindade e homem falam. Quando o medieval falava, era a divindade que se comunicava.
No medievo, o símbolo era o que representava, não levava para, mas era o evocado por ele. Ao se deparar com uma bandeira ou um brasão, o homem agia como se tivesse encontrado com o representado pelo símbolo. Aquele brasão não representava o rei, mas evocava a presença dele, é como se o próprio rei estivesse ali. Também nos símbolos cristãos, como a cruz, não se tratava de uma imagem, mas sim da presença do absoluto.
A religião tem boa parte de suas bases no tempo medieval, por isso o culto é permeado de símbolos. Até pouco tempo a igreja mantinha muitos outros símbolos, nascidos no contexto que tratamos. Porém, com o passar dos anos viu-se a decadência desta espiritualidade, os símbolos tornaram-se sem efeito. Destarte, houve a necessidade de rever fórmulas, imagens, textos, enfim rever a liturgia, pois a mística atual não estava caminhando junto com a medieval.
Vivemos um momento em que a espiritualidade se encontra vazia, os símbolos não falam mais e temos a necessidade de explica-los. A realidade simbólica deve falar por si, cabe a cada um desvendar a mensagem dos símbolos. Porém, somente quem se encontra em comunhão com o sentido originário é capaz de desvendar ou apresentar novos símbolos de impacto para história ou para a vida humana.